sexta-feira, 24 de julho de 2015

Nosso futuro no presente.

Você nos últimos anos se acostumou a acordar antes de mim, e eu me acostumei a fingir que não escutava aquele barulho irritante do seu celular disparando o alarme as 6:30 da madrugada, porque sempre percebi o seu semblante desolado de culpa por eu despertar e permanecer te olhando. E sim, digo madrugada, sim! Você bem sabe que manhãs não existem no meu vocabulário, e vou continuar achando um absurdo você se levantar a essa hora. Assim como vou continuar achando um absurdo, que de segunda à sexta-feira, eu perca o seu calor em nossa cama, e que apenas fique o rastro do seu cheiro em nosso lençol.
Sempre observo você se contorcendo um pouquinho mais, resmungando um tanto sonolenta, e se maldizendo todos os dias por ter cursado aquela bendita universidade, e ter se enfiado em um emprego tão corrido e cheio de responsabilidades, mas no fundo eu sei que você se enche de satisfação todas as vezes que elogio a sua inteligência e capacidade de coordenar aquele tão desgastante setor, dentro daquela tão xingada, por você, empresa de criação de softwares.
Depois de franzir levemente seu cenho, sei que você abre seus olhos e logo pula da cama, seu senso de responsabilidade com horário é um saco, acho que já te comentei isso inúmeras vezes. Quando não importava em me fingir adormecido, tentei incontáveis modos de te prender um pouco mais em meus braços, mas você conseguia de um modo incrível, me presentear com o sorriso mais lindo, dizendo apenas pra que eu voltasse a descansar, que a noite já estaria aí, e você seria só minha novamente. Acho que nunca te disse o quanto ouvir essas palavras eram importantes pra mim, o quanto elas mexiam comigo, e quando retomo tais lembranças, elas ainda são capazes de me aquecer.
Escuto você se arrastar até o banheiro e ligar o chuveiro de modo preguiçoso, e tudo que me resta nessas horas é te imaginar nesse seu momento tão breve, mas que tenho a imensa noção que te acalma antes de toda a correria diária. E tudo que me sobra é ouvir seus passos, tentando soar os mais silenciosos possíveis, mas você falhando miseravelmente, porque você é um verdadeiro desastre quando o assunto são os nossos móveis.
Somente sei que ao terminar de se arrumar, você pega as chaves e sai disparada do nosso apartamento, comer algo logo cedo é um sacrifício no seu dia-a-dia, eu também sei disso. Acabo me revirando no silêncio que toma conta dos cômodos, e tento voltar a dormir, mas meu relógio biológico é sempre difícil, algumas vezes eu confesso conseguir cochilar brevemente, outras tantas, apenas acabo enrolando um pouco mais na cama e levanto quando me entedio disso. Hoje faço isso, e ligo meu computador, procuro coisas para me distrair um pouco até realmente dar o horário para sair em direção ao meu escritório.
Você sempre brinca que um dia vai me surpreender chegando do nada ali, dispensando a secretária que eu contratei, apenas pra bagunçar o meu dia, os meus papéis, espalhando tudo pelo chão pra que sobre espaço pra você sentar na minha mesa e ficar me provocando, até que eu saia do sério e além de querer imediatamente te agarrar, perder toda a vontade de estar em qualquer outro lugar, que não seja em seu abraço. Porém, novamente o seu senso de responsabilidade entra, e isso só fica na promessa. Mas te confesso, amor. Sonho com isso sempre, desejo suas loucuras tão características suas, de uma maneira que nem você possa imaginar.



Se torna tão surreal pensar que a vida se acerte desse modo, que nos encaixamos tão bem dentro de tantos "e se", que fazem parte da nossa história. Você lembra de todos aqueles meses iniciais, onde tudo o que nos cercava era apenas medo, insegurança e tantos desejos quanto podemos contar a quantidade de estrelas no céu?
E aqui estamos, algumas coisas saíram como planejamos, outras foram verdadeiros erros, e nos fizeram mudar muita coisa do rumo de nossas vidas. Mas entre acertos e concertos, a intensidade dos nossos sentimentos só nos fez ficar ainda mais entrelaçados, nos reconhecemos na rotina um do outro, e depositamos um pouco do "eu" dentro do nós.
Crescemos, choramos, nos reconhecemos, voltamos e seguimos em frente, sorrimos, construímos, e ainda há muito com o que continuar. Disso eu sei bem, Você sempre foi de se jogar muito nos riscos que o presente te dá, eu sempre mantive o pé mais firme ao chão, soubemos muito bem combinar essas nossas personalidades, e hoje sei dizer que não há melhor escolha que poderíamos ter feito.
Quando olho para cada pedacinho do que temos, todo o passado de luta se torna um saudosismo imenso. Tudo é tão imensamente bom e reconfortante, que parece fugir à realidade.
Me sento agora no sofá de cor preta que você escolheu, observando o sol entrar pela janela da sala, e é engraçado como tudo compõe um cenário tão nítido e ao mesmo tempo tão etéreo. A luz fica cada vez mais forte e tudo esbranquece ao meu redor, até que eu mesmo sumo, me sentindo fora até mesmo de mim.
É aí que percebo, amor. Estou me olhando de fora através de um sonho muito real.
Acordo e busco meu celular para conferir a hora, e dentro do meu peito, uma sensação de vazio começa a se formar, querendo tomar conta de tudo. A luz do visor me causa incomodo, assim como a sua ausência também, me reviro sozinho na cama, lembrando que você ainda mora a quilômetros de distância, e que justamente nessas horas, em que sua ausência me faz perder o ar, é quando mais a impotência me abate.
São 3:00 da manhã, e o celular vibra recebendo uma mensagem. Destravo e percebo que é uma mensagem sua:
"Tô novamente com insônia, baby. Só vim aqui dizer que te amo muito. Espero que descanse bem. Não esquece que tô aqui pra qualquer coisa que precisar."
Você sabe mesmo afastar as minhas incertezas sobre nós, meu anjo.
Com um sorriso, que julgo até mesmo bobo, te respondo. Uma sensação leve bate no meu coração, o nosso caminho ainda é longo, mas ele é muito mais do que possível. Você está nele, e esse é todo o diferencial para mim.
Me dá sua mão, entrelaça ela com a minha.... vamos caminhando.

~* Paula Watanabe.